Você não sabe ler de verdade: raciocínio lógico, zona de conforto e literatura.

Ler

verbo transitivo direto e intransitivo

percorrer com a visão (palavra, frase, texto), decifrando-o por uma relação estabelecida entre as sequências dos sinais gráficos escritos e os significados próprios de uma língua natural.

Essa é a definição do Google para o verbo ler. E talvez você ache que este vai ser mais um artigo sobre leitura e como você deveria ler 1 livro por semana. E eu já te adianto que não.

Este é um artigo. Então se você tem preguiça de ler, pode sair, sem ressentimentos.

Mas eu preciso colocar minha cabeça nesse artigo. Meus pensamentos, ideias e, principalmente, minha experiência.

Eu cursei Biblioteconomia. Isto quer dizer, de maneira resumida, que eu estou apta para lidar com a informação em todas as suas etapas. Desde o momento em que ela é gerada até o momento em que alguém quer recuperá-la. Seja um usuário buscando um livro na biblioteca, seja um CEO querendo ver os dados sobre o consumo do seu produto para tomar uma decisão estratégica.

Eu tenho um perfil misto. Ouso dizer, sem modéstia, que nasci pra empreender, pela amplitude das minhas habilidades. Eu consigo ser extremamente criativa, editar vídeos no Adobe Premiere, mas também tenho um comportamento auditor. Ao mesmo tempo, adoro fazer projeções de gastos e planos. E foi por ter esse tipo de perfil, acabei não me tornando uma especialista. Eu não sou a programadora que virou CTO numa empresa. Eu não sou a Técnica em Desenho Industrial que fez Engenharia e passou no Trainee e já emendou uma pós.

Ao contrário, eu sei analisar dados, programar um pouquinho, domino bem tecnologias e tenho facilidade de aprendizado. Sou ótima para organizar ideias e informações da cabeça, costuro e faço crochê. Cozinho bem e administro a rotina doméstica, que envolve planejar refeições, fazer supermercado, coordenar (e fazer) limpeza da casa, fazer pesquisa de compra de itens domésticos, contabilidade pessoal e do casal, além de mais outras mil atividades. No trabalho, eu atuo como um tipo de síndica do meu trabalho. De seguro predial, passando por coordenação e organização de eventos, incluindo a logística de lanches para os funcionários? Estou eu lá pra resolver.

Quando surgiu o Ficou Ótimo, eu tinha mais vontade de empreender e mudar a vida das pessoas do que de exercer uma atividade muito específica. E eu me admiro muito com a capacidade que as pessoas têm de se prender a ideias ou áreas tão específicas como “auditoria de seguros prediais”. Eu nunca fui assim. Eu acho tudo maravilhoso e me interesso por marketing, planejamento financeiro, organização pessoal, planejamento estratégico, vendas, tecnologia, banco de dados e mais todas as outras áreas de uma empresa.

Só que eu queria um diploma. Esse era um grande desejo. Eu achei que seria alguém quando tivesse um diploma e fiz 4 anos de graduação para isso. Concluído. Peguei meu diploma.

E agora?

Durante a minha graduação passamos por um momento histórico para o país que foi desde a reeleição da Presidenta Dilma Roussef, marcada por inúmeros protestos até seu Impeachment. E eu cito este fato pela importância que enxerguei naquela época, que é o tema central deste artigo.

As pessoas não sabem ler!

E por que eu digo isso? Porque eu escolhi um lado político na época. Escolhi um lado, caí na luta política do Facebook e….

PASSEI VERGONHA!

Passei vergonha porque na época eu me agarrei à Dilma como símbolo do feminismo. Me agarrei ao PT como símbolo das minorias pobres. E tomada pelo mito do herói, me ceguei para os pontos chaves da leitura. Eu discuti sem bons argumentos. Discuti sem lógica, nexo, sem nenhuma coerência.

Começando um longo parêntese agora, preciso dizer porque afirmei acima que as pessoas não sabem ler.

Eu comecei este artigo citando a definição do verbo ler. E esta definição é importante, devido a um trecho bem específico, que vou recolocar aqui embaixo:

“significados próprios de uma língua natural”.

E aqui eu vou deixar a página da Wikipedia para a Teoria do Significado, para quem quiser se aprofundar, mas resumindo:

Significado é a estrutura semântica que representa um signo. Desenhando, é assim:

Você pensa em uma cadeira. O signo é a cadeira. O significado é a estrutura que é um objeto, feito de material (podendo ser rígido ou não) com apoio para a lombar e etc. Não vou me aprofundar, só queria que você não saísse correndo do texto por ter termos técnicos demais.

Voltando à definição do verbo “ler”, quando dizemos “significados próprios de uma língua natural”, estamos atribuindo um contexto ao significado. Então, cadeira só faz sentido na Língua Portuguesa, já que na Língua Inglesa, o conceito de cadeira é representado pela palavra “chair”.

Dentro da estrutura de uma língua, seja ela qual for, temos estruturas semânticas (sobre sentido dos elementos entre si) e estruturas sintáticas (função e papel das palavras em uma estrutura). A semântica e a sintaxe são elementos gramaticais e a gramática é uma área de estudo de uma língua. Diferente de um movimento literário, por exemplo. Os movimentos literários fazem parte de outra área, que é a literatura.

Quando você pensa em leitura, eu aposto que te vêm duas coisas à mente:

1 – Machado de Assis;

2 – Qualquer livro de autoajuda de autor recém descoberto que você viu na livraria.

E eu não vou te julgar, porque as pessoas deturparam o sentido da leitura.

Dizem que ler faz bem. Dizem “quem lê muito, escreve bem”. Dizem: “eu li 52 livros esse ano”.

Mas ninguém diz o que importa de verdade, que é: você acha que sim, mas não leu a maioria das palavras que passaram pelos seus olhos.

Durante os 15 anos que fiquei na escola aprendi sobre diversas estruturas, dentre elas, os advérbios. Que nome bonito! Que forma bonita de dizer que a pessoa faz algo rápido (rapidamente) ou que me surpreendeu (surpreendentemente).

Hoje, aos 30 anos, eu trocaria 90% do conhecimento que tive de gramática pelas aulas de literatura que me ensinavam a interpretar charges, figuras e tirinhas e acrescentaria raciocínio lógico. Isto é a estrutura de uma leitura de verdade.

São as aulas de literatura com suas questões de “analise a tirinha abaixo” que te capacitam para não ser mais um ignorante no meio da multidão. Era esse modelo de aula que te fazia extrair (olha a minha área entrando aqui) a informação que você precisa. É a aula de literatura que te faz compreender, que é o único objetivo que faz sentido ao se consumir qualquer tipo de informação.

E aqui faço uma pausa para as poesias. Porque você pode pensar que há leitura sem necessariamente aprender alguma coisa, mas repetindo, é sobre compreender. Quando você lê a poesia, você a compreende em dois níveis. No primeiro, compreende o que a autora quis dizer, de acordo com a sua percepção. Na segunda etapa da compreensão, você entende que aquilo é profundo porque ressoa com algo dentro de você.

Voltando à estrutura de uma leitura digna, vou encurtar a conversa, já que boa parte do meu ponto foi mostrado.

E aqui eu introduzo o MEU conceito do que é, de fato, ler.

Ler é o ato de traduzir uma mensagem com o sentido mais próximo possível da intenção do emissor.

E o conflito aqui é entender que a maior parte das pessoas não lê. Elas procuram elementos na leitura que confirmem seus pontos de vista ou não te tirem tanto da zona de conforto.

Quando eu discutia política e passava vergonha, era este tipo exato de leitora: a que procurava só os pontos que pudessem provar a minha tese. E funciona assim: você já tem uma tese montada. Talvez sua tese hoje seja de que mulher não trabalha tão bem quanto o homem. Talvez sua tese seja que os livros são melhores que os computadores para procurar informação. A tese não importa. Importa se você usa a leitura para se desprender da relação tóxica com a sua tese ou se somente se preocupa em confirmá-la.

Quando a gente é este tipo de leitor (o que só quer confirmar a própria visão), acontece um fenômeno muito comum que é a dissonância cognitiva. A dissonância cognitiva é quando um indivíduo tem uma opinião sobre um tema, mas começa a se contradizer, porque quer tanto provar um ponto, que seleciona informações e emite argumentos/opiniões que refutam sua ideia original . Então o João acha que quem come laranja fica doente. Mas aí, em uma discussão, ele quer tanto, mas tanto provar o ponto dele, que ele pega um artigo pra provar o ponto dele e coloca lá no grupo do zap da família. Só que o o artigo que ele usou pra provar seu ponto, diz que foi observado que as pessoas que comiam laranja ficavam doentes, mas que não foi por causa da laranja. Só que o João quer muito provar que tá certo, e quer tentar provar (com um argumento contraditório) que está certo e ponto final.

E aí, quando acontece a dissonância, o indivíduo entra em negação, sendo refém das próprias armadilhas. Agora, dito isto, te pergunto: você já presenciou alguma discussão política onde as pessoas ficaram completamente irracionais? Pois é, possivelmente uma boa parte disso é por causa da dissonância. Eu mesma já sofri dissonância cognitiva diversas vezes quando discutia política há alguns anos atrás.

Retomando agora o tópico da estrutura de uma verdadeira leitura e o que ela deve realmente representar, destaco aqui uma disciplina muito comum em concursos públicos e que costuma ser o terror dos concurseiros: o raciocínio lógico.

Até pouco tempo atrás, eu era uma pessoa completamente irracional. Meus argumentos não faziam sentido e, se eu parasse (hoje) para ler o que escrevia antes, provavelmente teria muita vergonha.

O raciocínio lógico é a disciplina que estuda a relação dos fatos lógicos, argumentos e etc. Deixo aqui de novo o link da Wikipedia, caso você queira se aprofundar no assunto. Clique aqui!

Você provavelmente já ouviu a frase: “Isso não tem lógica”. Geralmente essa frase é aplicada para situações absurdas, que não tem relação ou sentido algum. E aí eu entro em mais dois conceitos (calma que já tá quase acabando o artigo, minha bonificada).

Sentido: encadeamento coerente de coisas ou fatos; lógica, cabimento.

Quando falamos em lógica, falamos de relações lógicas. E este não e´ um tema que vou expandir aqui para que o artigo não fique ainda maior, mas é basicamente a coerência e a maneira como os elementos se relacionam nas estruturas. Ser coerente é fazer sentido, é ser lógico, ser racional.

O sentido não pode ser subjetivo. Ele não está associado ao seu ou meu contexto. O sentido deve ser coerente. Mas o que acontece é que normalmente as pessoas alteram o sentido das estruturas quando as leem. Quer um exemplo? Volte algumas frases acima e veja novamente sobre dissonância cognitiva.

O outro conceito é a relação. A relação aqui é no estrito sentido da palavra, de estabelecer relacionamento. Se eu juntar as palavras cadeira e menina não há relação alguma, mas se eu disser “a menina está sentada na cadeira” foi estabelecida uma relação entre a menina e a cadeira.

Existem diversas relações e estudamos sobre elas naquela parte da gramática que você provavelmente abomina: as orações subordinadas. Tem oração subordinada substantiva, oração subordinada adjetiva. Tem oração subordinada adverbial causal. Cada uma dessas orações nos ensina um tipo de relação entre uma sentença e outra. Entre um período e outro, para ser mais precisa. >>Se você não se lembra o que é um período, mas já chegou até aqui no artigo, dá um Google, vai?<<

Estas relações são a base para nossa compreensão das informações em uma estrutura. Quando digo estrutura quero dizer sobre períodos, frases, parágrafos, textos, tirinhas e qualquer lugar onde há algum tipo de comunicação ou de intenção de comunicação.

Quando não aprendemos corretamente sobre o sentido e sobre as relações, isso afeta nossa capacidade de compreensão e adivinhe só: reduz a pó nossa capacidade de extrair a informação pura.

O que eu chamo de informação pura é a informação mais próxima que o autor da mensagem (seja ela em texto, áudio, vídeo, etc) quis passar. Se eu digo que a uva é azul, eu não quero que você compreenda que ela é azul turquesa. Não quero que você pense que a uva é verde, quero que você entenda que a uva é azul. Nada mais, nada menos que isso.

Quando a comunicação é distorcida a ponto de não conseguirmos extrair informações puras de uma mensagem, o processo de leitura fracassou.

Além da compreensão, há também a exposição à informação.

É comum que, ao procurar por uma informação, seja em uma busca do Google, seja buscando por um livro em uma biblioteca, que a gente selecione somente informações que provam nossas suspeitas, que reafirmem nossas teses. Se eu procuro uma informação na internet, mas já tenho uma suspeita, vou me sentir muito mais confortável se encontrar informações que reforcem essa minha suspeita.

É normal que a gente busque por conforto. Como seres biológicos, evoluímos para poupar energia. Não é nenhuma vergonha, ao contrário do que muitos coachs sem noção falam por aí. Porém, a mesma zona de conforto que te deixa seguro, te prende e te impede de evoluir. E é exatamente por isso que você precisa buscar informações que confrontem os seus conhecimentos.

Quando confrontamos nossos conhecimentos somos forçados a pensar, refletir e gerar novas ideias. Quando confrontamos o que sabemos, somos obrigados a pensar em novas soluções. O mundo só evolui a partir de reflexões, de novas ideias e consequentemente, de novas ações.

Parece papo de coach motivacional mas a informação que causar mais desconforto provavelmente é a que vai te fazer evoluir mais. Uma informação que me causou muito desconforto, mas que me fez acordar pra vida foi: faculdade não garante emprego. Foi duro saber isso? Foi! Mas antes tarde do que nunca.

Se você leu até aqui, tenho que te avisar que sou péssima em conclusões. Então, vou fazer o meu melhor.

Depois de todo o desenvolvimento do raciocínio do porquê eu acredito que a maior parte da população brasileira que foi alfabetizada não sabe ler, eu gostaria de recapitular alguns pontos, para fixar melhor todas essas ideias.

Ponto 1 – Ler é sobre compreender, não sobre engolir palavra. Se você não compreende o que lê, seu processo de leitura está seriamente comprometido.

Ponto 2 – Para compreender você precisa dominar literatura, raciocínio lógico e orações subordinadas

Ponto 3 – A leitura só faz sentido se trouxer informação pura.

Ponto 4 – A informação pura é o mais próximo possível do que se pode chegar da mensagem que o emissor quis passar

Ponto 5 – A informação que te faz progredir é a que te confronta. Quanto mais “atrevida” uma informação, melhor vai ser para seu processo de aprendizado

E por último (e o mais importante):

Nunca é tarde para aprender a ler de verdade. Não queira ler 52 livros por ano. Queira entender uma frase por completo.

Uma frase bem compreendida é mais poderosa do que uma biblioteca de superficialidades.

Um beijo lógico, cheio de informação pura pra você que chegou até aqui! Meu muito obrigada!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: